sexta-feira, março 25, 2005

Factor J

Quando pensamos em justiça conduzimos a nossa imaginação por tenebrosos ambientes onde, por entre densas atmosferas, nos surgem processos que são deligentemente dirimidos entre recursos e longos períodos de tempo aguardando concretização.

Na verdade, actualmente, conseguir justiça é principalmente reduzir a morosidade dos tribunais. Conforme ilustra o meretíssimo Dr. Batista Coelho, presidente do sindicado de juizes, justiçar “é impedir os mecanismos e incidentes processuais” que advogados, arguidos e réus “usam de modo preverso”.

Curiosamente a essência desta actividade, cuja base devemos à civilização romana, tinha por objectivo clarificar, organizar e regular as relações complexas que naturalmente ocorrem em todas as civilizações humanas. A progressão do desenvolvimento das sociedades imprime, em consequência, novos desafios à justiça que procura observar o cumprimento das regras definidas pela própria sociedade.

A falência do sistema manifesta sintomas de turbulência na sociedade que, desprovida de um orgão eficaz para superintender as leis criadas pelos que exercem governação, perde uma das bussolas orientadoras rumando, aos “tropeções”, mais ou menos evidentes, pelos acontecimentos que se sucedem. Esta desorientação, que é confortável imputar àqueles que são oficiais, funcionários e demais intervenientes nos ciclos processuais dos casos em circuito, deve-se apenas ao esgotamento do sistema que, tendo sido relativamente eficaz ao longo dos séculos, estancou na contemporâneidade perante alterações profundas que vemos marcar o nosso tempo.

Esta diferença, distintiva no planeta onde assinalamos a nossa presença, encontra-se imbuída de velocidade, mudanças abruptas e cenários imprevisiveis onde o direito, sendo reflexo da leitura continuada e reflectida da sociedade, à muito deixou de conseguir acompanhar.

Muitos dos “bem intencionados” araútos da reforma teorizam sobre as possiveis soluções mas na prática a “dura” realidade suplanta qualquer ficção. Na prática pretende-se a resolução arbritada, em tempo útil, pelos que são devidamente credenciados para o exercicio da função e que se vêm em pouco tempo cercados por muralhas de folhas cujo objecto é o registo dos factos trazidos ao seu juízo e sobre os quais devem determinar sentença à luz das leis em vigor.

Mesmo a ilustre “caixa mágica” que diáriamente nos entretém contribui “desinteressadamente” com o seu imenso poder julgando “à priori” os malvados que, como cogumelos, surgem para nos assombrar.

Também existem os zelosos legisladores, doutos, sapientes, profundamente informados nos percursos, trâmites e esquemas que procuram rasteirar as regras, e nos brindam com mais leis, “actuais”, “brilhantes” de lustrosas e totalmente “adequadas” aos fim a que se destinam.

Ainda nos poderiam valer os xamãns da informação digital que armados de talismãns curativos, noutras circunstâncias aparentemente menos complexas, cuspiriam “bites” e “bytes” animando de inteligência, ainda que artificial, as instâncias deliberadoras livrando-as assim de curriqueiras deliberações. No entanto quis algum poder, certamente divino, obviamente para nos testar, que em todas as transmitações da justiça apenas faro humano pudesse espreitar, processar, analisar e determinar.

Malfadado peso demais enorme mesmo para “imortais”.

Com tamanha boa vontade, e sendo nós um paìs de compulsivos “optimistas”, o mais que podemos esperar é acreditar nalgum “bom senso” dos que legitimamente recorrem aos tribunais fazendo fé nas suas razões e vendo o velho tempo consumir-lhes os recursos medidos em custos processuais mais não fazem que desistir deixando uma fina nesga para os casos mais preementes e desse modo contribuindo para uma pequena “oxigenação” da máquina trituradora em que a “justiça” se transformou.

Faça-se JUSTIÇA e honre-se a sua altruísta coragem decidindo irreversívelmente.

terça-feira, março 22, 2005

Factor M

O fascinio pelo género feminino, que ao longo dos séculos de história conhecida, pontua invariávelmente aqueles que "não procuram mas sim encontram" teve máxima expressão pela capacidade do artista que deslumbra e busca na fêmea uma ponte para o entendimento do belo que nunca se esgota e por isso mesmo se torna a fonte fertil da criatividade.

A mulher em si encerra a suprema arte, aquela que tem o poder de gerar a própria vida e por isso mesmo a herança continuada de muitos modos de vida que se prolongam no espaço/tempo.

Num mundo agitado e profundamente assimétrico que outro ser poderá estar mais apto a compreender, empreender e executar a mudança?

Nos momentos criticos do passado recente a sua intervenção ultrapassou os muros erguidos, as convicções fossilizadas e os medos mais enegrecidos.

Pessoalmente fascina-me o empreendorismo resoluto e empenhado de todas as mulheres que gerem deligentemente todos os campos que povoam as suas vidas dando-nos a nós homens muitas referências que marcam acentuadamente a nossa personalidade individual.

Sempre admirei Esteé Lauder pelo que a sua marca pessoal representa e pela fausta herança legada. Por um lado um enorme estímulo económico determinante e sustentado pelo comércio operado através dos muitos produtos vendidos mas acima de tudo uma demonstração do seu imenso talento, poder de sedução e visão.

Entender “a beleza como uma atitude” é encontrar-se em sintonia com tudo o que nos rodeia e “acreditar ser, verdadeiramente, atraente”.

O seu génio revela-se por nos dizer que no fundo ninguém necessita de comprar cosméticos, perfumes ou acessórios diversos para se tornar belo. De facto ninguém inventaria pior publicidade para vender o sonho da magia promovida pelo império que fundou.

Necessáriamente Esteé Lauder sendo mulher sabia o quão longe a sua aura feminina podia alcançar ao ponto de outras mulheres comprarem os seus produtos não por eles as tornarem mais belas mas sim por quererem ser como ela.

É forçoso concluir, se pensarmos bem nisto, que é para mim em absoluto uma convição profunda, que devemos insistir numa sociedade que promova a verdadeira dimensão do feminimo. Isto implica entender o género em si mesmo e desse modo perceber as condições necessárias à sua plenitude como por exemplo a maternidade.

Em causa estão séculos de supremacia masculina e submissão feminina numa relação de parceria desiquilibrada e parcial. No entanto a mulher conseguiu ocupar legitimamente o seu posto dando mostras de tenacidade e resistência sem igual. Pacientemente avançou demonstrando o seu potencial ilimitado perante uma envolvente hostil, desconfiada e disposta a obstruir a sua passagem.

Com surpresa descubro, todos os dias, novos talentos nesses seres deslumbrantes que nos entregaram um sopro para existir, nos nutriram de seus peitos e alimentaram de compaixão, afecto e sensibilidades únicas.

Por muitas outras razões falta cumprir-se o que lhes é devido e se não em dimensão material pelo menos no respeito e admiração que mesmo nos pequenos gestos lhes insistimos negar.

Factor P

De uma maneira ou de outra todos nós nos contorcemos assistindo ao percurso sinuoso da nossa história nacional. Apesar de reconhecermos quase em unísono a necessidade absoluta de operar mudanças à muito anunciadas, e certamente desejadas, esperamos languídamente que alguém o faça para finalmente suspirarmos aliviados e sermos, de facto, o que quase sempre invejamos nos "estrangeiros" bem sucedidos.
Felizmente fomos brindados pela providência que nos legou um pedaço confortável de "Mundo" onde descansadamente podemos “repousar” e esperar. Esperar a viragem, o encoberto, os fundos, a politica estrutural e agora, “merecidamente” os “Realty Shows”. É seguro afirmar que seria de repensar o ser português e com a ajuda de algum iluminado constitucionalista lançarmos uma nova nacionalidade; o esperutuguês. Só assim seremos justamente nomeados e continuando deligentemente a copiar o que de melhor lá fora se faz esquecermos as mudanças tortuosas, as oportunidades arriscadas e o progresso manhoso.
Que bom é aguardar pelos séculos indolentemente instalados sob um Sol generoso, uma gastronomia suculenta e um país maravilhosamente povoado de história, natureza relativamente preservada e um potencial latente. Só assim podemos reflectir e decidir conscientemente no que fazer porque pode dar-se o caso de não acertarmos na solução logo à primeira e isso é um “risco” que não podemos correr. Basta observar o que fazem os lideres que nos conduzem e que suadamente cautelosos se carregam de mil cuidados para nos afastar de todos os riscos e males sempre à espreita neste século complicado, demais acelarado e imprevisível.
Oportunamente somos diferentes e não vamos atrás das quimeras da “inovação” que só trazem chatices, esforço desmedido e ainda por cima sem garantia de resultados. Orgulhosamente podemos contar as nossas glórias idas e usá-las dignificando a nossa diferença e aguardar seguramente sentados vendo os outros passar.