quinta-feira, maio 26, 2005

CARPE DIEM

Sete horas, vinte e três minutos e nove segundos. A minha mente desperta de um sono profundo. As pálpebras desvendam a luminosidade matinal que activa as minhas pupilas e íris. Vagarosamente ajustam-se aos fotões que invadem a o câmara ocular no interior do globo oftalmológico. O meu cérebro lê a imagem que se forma na córnea. Vislumbro o meu quarto quase como era quando adormeci. É tempo de calor, mar salgado e areia molhada.
Lanço-me para o alto e procuro alimento. Pão, manteiga e leite morno penetram o meu corpo que se anima e agradece reconhecido. É exigente e merece os meus cuidados gastronómicos apurados.
Combinei acompanhar-me do ventre que me abrigou e de onde nasci numa procissão Caparicense onde habita uma Rainha de areias doiradas. Ele atrasou-se mas roubámos tempo com a determinação precisa de um relógio de luz. Sacos, toalhas, água e chapeú de sol são o equipamento de apoio logístico que transportamos connosco quando nos instalamos no módulo de transporte.
Os caminhos apresentam-se francos. Uns poucos veículos lembram-nos que ainda vivem gentes em Alvalade, Telheiras, Estrada da Luz, Entrecampos e Ajuda. Pelo eixo dos pontos cardeais da vertical principal percorremos em direcção à ponte “Ditatorial” atipica que ainda se mantém intacta e bem preservada apesar da queda do regime assim como o seu nome original. Três faixas circulam até à outra margem onde outro caminho nos deposita o destino sob os pés.
Uma ligeira brisa move o ponteiro das horas, minutos e segundos. São exactamente oito horas, quarenta e nove minutos e sete segundos. A praia sacode-me os timpanos e sussurra-me o mar Atlântico Norte.
Parqueio o módulo onde a gana me grita e reunimos os aparelhos de veranear. Um pequeno punhado de criaturas desnudas ocupam o areal e a rebentação é morna. Acampamos e degustamos algumas revistas que vieram apensas com os sacos. Grande Reportagem e Sábado são desfolhadas e apreendemos o conteúdo.
Nove horas, três minutos e treze segundos. Aqueço os membros, o tronco, a concentração, e parto num passeio em passo de corrida. Sigo pela esteira molhada que a maré formou e durante sessenta e sete minutos os membros inferiores mostram-me o sentido e a sua resistência anaérobica. Entretanto, no durante, passam crianças, bébes, adultos, adolescentes e pessoas antigas.
No sentido de onde parti desloca-se gente em pequenos molhos mas no sentido contrário encontro-os depositados sobre o chão de areia como paíneis solares ou bichos de sangue frio. No regresso mostram-se imensos e não sei como apareceram subitamente em menos de uma hora.
Quando firmo os sapatos de corrida no ponto de partida passa das dez horas da manhã. Desaperto os cordões e livro os pés, pela primeira vez, nos grãos de praia. Distendo-me relaxadamente. Ajoelho-me em contacto com o terreno húmido, junto à rebentação, e durante uns minutos absorvo a radiação solar que me massaja a epiderme.
A minha progenitora banha-se nas águas oceânicas e venço a rebentação para me juntar a ela. O meio aquático encontra-se à temperatura ideal para que os meus músculos se retraiam e nesse caldo delicio-me com uma segunda massagem. Após alguns breves bocados de tempo mergulho o corpo ficando com a cabeça sobre a linha de água desenhada a meio pescoço. Sinto a temperatura a estabilizar e o sangue a afluir de novo nos vasos que percorrem os mecanismos musculares.
Conversamos um pouco e de seguida navego propulsionado através de braçadas vigorosas e pedaladas cadenciadas que me fazem progredir sob a massa de mar. Quando termino encontro-me de novo junto ao ventre que experimenta o mesmo divertimento como forma de exercicio. Cerca de trinta e um minutos foi quanto durou esta dança hidro familiar quando saímos em direcção às toalhas, chapéu e sacos.
Pela extensão que nos separa conversamos animadamente e outros tantos minutos cumprem a sua missão desaparecendo.
Onze horas, quarenta e cinco minutos e nove segundos. Arrumamos o equipamento e instalamo-nos de novo no módulo de transporte. O local onde o imobilizámos encontra-se cercado de módulos de todos os matizes, modelos e marcas. Uma invasão parece ter ocorrido enquanto nos banhávamos de mar e praia.

Muitos mais afluem em grupos, tentando prencher o espaço vazio que não existe e mais de cinco aguardam como abutres que desloquemos o nosso transporte dali para fora para que possam encaixar-se no mesmo sitio.

Á saída e durante a travessia uma interminável serpente de veículos, de movimentos congelados, descreve uma penosa marcha em direcção ao mar. A fila engrossa pelo tabuleiro da ponte que sombreia as Tágides e lança o comprimento de carros até ao eixo Norte-Sul terminando sobre o viaduto de Entrecampos junto ao Zoo.

Milhares de rodas percorrem o asfalto como cardumes de peixes dispostos da cometer suícidio deixando-se morrer na praia. O calor aumentou considerávelmente e sente-se o desconforto daqueles que aguardam impotentes na clausura metálica e plastificada deste cenário burlesco.

O meu ego ilumina-se por me sentir abençoado pela providência celestial que me ensinou a viajar no tempo aproveitando-o em meu benefício e assim permitindo-me a seguir contra a corrente de “ordeiras ovelhas” que copiam fielmente os comportamentos tipificados umas das outras.

Pelo percurso ainda nos deleitámos com uma estupenda cidade Incrivelmente mutante. Não sou Almadense e confesso-me invejoso por ser apenas Olissiponense e no contexto da visão sinto-me orfão de terra.

Visitámos o magnífico Elevador Mirante no interior do perímetro das memórias urbanas passadas. Degustámos alguns grãos de café e vimos uma Praça de Liberdade com o seu páteo de céu e piso de tenra relva.

Quando abrimos o plano de porta que anuncia o espaço intimo e familiar onde vivemos são exactamente doze horas cinquenta e nove minutos e um segundo.

Como é doce ser desordeiro.
O almoço aguarda-nos e trincamo-lo serenos.

quarta-feira, maio 18, 2005

ALMA MATER

Parece intrinseco à condição de humano o querer unir-se a qualquer coisa que lhe seja próxima. Busca incessante, demanda solitária e questão fulcral no sentido que cada um pretende percorrer.

Perseguindo esse propósito, que podemos classificar de experiência quase religiosa, a centelha individual que nos anima pressente uma origem comum que nos escapa. Esse começo único insiste em enconder o seu desenho revelando apenas um singelo contorno que a nada mais se assemelha além de sombra.

Rodeados de ruídos diversos, diversões bem executadas e espiritos inseguros navega-se moribundo pelos mares de sargaços, afundados no desânimo nefasto e infectado de solidão.

Montados de seres humanos habitam as cidades e por todo o lado pintam a indiferença com pigmentos de medos expressos com intransigente arrogância “criando” conflitos irresolúveis numa longa marcha sobre o ribombar dos estimulos gerados e desenvolvidos com foco no desperdicio.

Alinhados na rotina diária e interconectados pela necessidade de criar um sustento progridem em formação como um exército de almas penadas onde a vontade domada e replicada se desenrola inanimada pela cronologia individual.

Não ousam questionar, interpretar ou sequer olhar. Comunicar exige empenho demasiado grande que mereça atenção e assim se reduzem os diálogos a monólogos, as sinfonias a gemidos e os mestres a déspotas tutores empenhados em castigar os espiritos ávidos de conhecimento.

Assim se altera a paisagem construída que se apaga debaixo do punho do mercado. Altera-se assim o futuro que não se permite a omitir os muitos passados que mediante vários estratos moldaram o presente. Perdem-se os legados que são fio condutor e balizador dado que se desconhece como navegar sem ponto fixo.

A própria comunicação assume um papel contrário à sua natureza e veta verdades absolutistas que iluminam as sociedades.

Alma Mater. Alma e Matéria reunidas numa única entidade mas distantes como galáxias entre si ou até universos inteiros. Nasce-se independente de razões, crenças ou ideologias mas num diálogo de corpo e espirito que aos poucos dissociamos e desaprendemos, através da educação, experiência familiar e profissional, que devemos combater, numa guerra sem vencedores onde o troféu é o emsombramento do eu singular que habita em nós.

Esse ponto fundo onde a Alma e a Matéria se unem numa única verdade e que, quando bem sucedida, forja as pessoas de quem gostamos, respeitamos e queremos igualar.

Tão simples de descrever mas, para muitissimos, impossivel de obter.



sexta-feira, maio 06, 2005

PATTER FAMILIAS

A crise de liderança que atingiu em cheio esta praia “dependurada” na Europa tem especial enfâse, como facilmente se confirma, no seio das famílias portuguesas. Dizem-nos que se deve à conjectura social e à situação a que se chegou por ela motivada. Na realidade, podem crer, enganam-nos e enganam-se redondamente.

O líder numa família é por tradição o elemento masculino mas ultrapassadas as “inseguranças” masculinas ao longo dos séculos de história ocidental vamos aceitando, quanto a mim correctamente, que quem guia toma para si a responsabilidade de ser o timoneiro independentemente de ser de um género XX ou de um género XY.

Isto significa que a pessoa em causa reconhece os seus deveres e do mesmo modo os direitos que lhe são devidos. E de que se trata quando nos referimos a direitos? No topo da lista colocaria o que cola na íntegra no papel de Patter Famílias, i.e. o direito de ser reconhecido e respeitado como líder. Dessa forma a sua decisão, devidamente debatida e argumentada por todos os membros da família, é compreendida e tomada à letra. Aceitar uma decisão, tantas vezes complexa e antagónica com a plataforma emocional individual, revela coragem, dedicação e confiança incondicional. Na origem de onde partiu, essa decisão, o decisor responsabiliza-se pelos resultados da mesma e não se aparta de motivar incessantemente os elementos da sua “equipa” incutindo-lhes ânimo, segurança e auto-confiança, e caso os conduza ao insucesso, ainda que temporário, reconhece a razão onde ela é materializada não imputando resultados a “conjecturas”, terceiros “encapuçados” e, ou, ocultos e muito menos aos seus.

Posto isto é muito fácil adivinhar que o Patter Famílias não passa ao fim ao cabo de um simples, enorme e misterioso bicho muito próximo da extinção.

Fazendo o reflexo, como seria de esperar, na vida empresarial, os contornos ganham dimensões atómicas que provocam danos inesperados por toda a parte.

É comum assistir-se ao desempenho do “líder” autoritário, arrogante e omnipresente que zurze o seu bastão a qualquer um que se atreva a opor-se ao seu iluminado grunhido fazendo uso da sua “destacada” posição para expor frustrações pessoais, deficiências sociais e má educação generalizada.

Outros optam por se esconder sob a capa introspectiva da sua sala de direcção evitando o contacto pessoal que lhes permitiria ler as peças que articulam os desenhos necessários a configurar o sucesso da sua tripulação.

Existem igualmente aqueles que nunca se enganam uma vez que irradiam sabia e velozmente a solução que irá talvez um dia terminar a cabeluda confusão.

Todavia as receitas não se aplicam em caso algum quando nos entregamos à árdua incumbência de gerir gente. «Cada cabeça sua Sentença». Só quem nunca chefiou nada classifica o conceito pela palavra provérbio.

Em primeiro lugar chefiar, liderar ou conduzir grupos de pessoas implica, obviamente, gostar delas e por isso mesmo estar sempre disponível para as ouvir, estimular e cultivar como se fossem filhos queridos e pródigos.

Mas bem sabemos que raramente encontramos alguém assim.

Felizmente ainda existem alguns Sobas para vermos como seria esse animal racional e principalmente emocional.

Mas resta pouco tempo para os salvarmos da extinção que se avizinha.

segunda-feira, maio 02, 2005

VIA ÁPIA

O tempo lança a via que se inica no céu e termina onde se enterra um machado da fundação. Os 3 estádios personificados em Martim Moniz, Fernão Magalhães e Sá Carneiro marcam a cronologia inacabada como a sua obra.

Estendendo-se entre a rotunda do “relógio”, tristemente encimada por um viaduto e a praça do Martim Moniz corre um eixo de propriedades únicas. Uma rodovia que percorre Lisboa entre duas fronteiras; a que se define pela segunda circular e aquela que era outrora uma bolsa de abrigo seguro para as embarcações que aì fundearam pela primeira vez.

Uma linha onde circulam, pássaros, pessoas e veículos de muitos tamanhos e formas. Sob a terra o metropolitano perfura o solo abrindo um convite em cada estação. Algumas areonaves usam uma parte do caminho mas ainda assim não tão assumidamente.

Ao longo do trajecto os edifícios ganham dimensão, altura e escala até terem um momento de pausa intensificada na Alameda Afonso Henriques. O fundador-conquistador observa no vazio da sua plenitude e parece animar os caminhantes em peregrinação embora a sua presença não se manifeste além do forte eco vindo da água que tomba e parece soletrar uma memória impar quando calha ser fonte. Recordo-me da agitação que sentia ainda criança absorvido pela magnânima beleza da energia liberta por essa força da natureza. Ficava igualmente triste por a ver deserta do elemento aquoso o que infelizmente sucedia e sucede ainda agora com necrófuga abundância. Uma fonte tão magestade não deveria encerrar o seu curso ouso pensar.

A jornada principia onde agora emerge um emarenhado de betão e asfalto assente numa rotunda onde existiam duas "gigantes" máquinas do tempo. Escrevo gigantes porque sempre que as observei pareciam-me descomunais do autocarro verde escuro que me desclocava entre os Olivais e o Areeiro. Era um momento fascinante poder ver aqueles círculos riscados de enormes ponteiros brancos com a vegetação cuidada por fundo. Não era algo que passasse despercebido aos olhos de um infantil.

Contornado o círculo de tempo seguimos pelo corredor de moradias que sendo muito variadas se integram harmoniosamente umas nas outras formando um mosaico colorido com que se sente prazer ao olhar.

Quando as via tentava desvendar os segredos por detrás de cada uma e ao fim de algum tempo memorizei todas elas como se fossem rostos. De olhos fechados a minha mente apontava com precisão a sua passagem pela moldura da minha janela.

Chegado ao Areeiro apeava-me e penetrava nas profundezas misteriosas do Comboio Fantasma. Embora vejamos o “motorista” a pilotar quando a compacta composição inrrompe pelo cais sempre se parece com um ser inanimado que soa a fabricação fantasmagórica. E com um pouco de imaginação podemos comparar os túneis a galerias pejadas de mil perigos que assolam os passageiros aterrorizando-os no instante fugazmente certo que os paralize.

Irremediávelmente vinha à tona no Rossio e na volta de novo no Areeiro. Aì Sá Carneiro, ou mais correctamente a sua cabeça decepada, olha certamente estupefacta tudo o que se passa. « - Onde estaríamos se não me tivesse despenhado? » Parece pensar interrogado no enigma.

Com a minha adolescência vieram novas responsabilidades e uma passagem diária pela Fonte Luminosa motivada pela frequência da famosa António Arroio onde confesso me desiludi pela moleza da doutrina artistica que certamente envergonharia o bastião que lhe deu nome.

Nesses tempos já escolhemos os nossos trajes afincadamente como convém ao agrado do mistério curvilíneo que também se senta e aprende na mesma fauna de estudantes cheios de hormonas anciosas por descobrir as diferenças entre géneros. E assim fazia algumas opções nas montras da Almirante Reis, fértil em alternativas sempre na "moda" e conveniente à magra bolsa de um projecto de gente.

Seguindo a pé vi um comandante de descobridores. Repousava deligentemente sob um canhão enquanto vislumbrava o horizonte parecendo adivinhar num sopro a direcção certa onde as correntes e os ventos seriam generosos ao seu desígneo. Tinha sempre um tom solene mas pragmático e as suas ordem seriam precisas, claras e empreendidas com sentido de missão.

Mais adiante uma casa de pasto onde os apreciadores de cevada liquida acompanhada de bife molhado podem descansar e confortar o apetite. Chamam-lhe Porto mas fica na Gália. Nunca entendi tal coisa mas prefiro os cachorros especiais com uma loura a condizer e o rolo de carne a preparar o repasto nas horas tardias pouco antes de encerrar pelo que sou invariávelmente varrido.

Continuando chegam os Anjos que por timidez nunca se revelam mas concerteza alguém os deve ter visto porque o seu nome ouve-se inclusivé debaixo dos nossos pés. Nesse preciso local uma nave aguarda os fieis entre o arvoredo que ferverosamente lhe monta a guarda. São muitas as interessantes arquitecturas que felizmente ainda perduram apesar do seu debilitado mas reabilitável estado.

Subitamente uma Viúva de Lamego anuncia no azulejo luzídio a sua marca de prestígio.

Importantes sinais decorativos assinalam a importância desta fase final do percurso e um "cabeça no ar" é mais premiado ao contrário de todos aqueles que simplesmente atravessam sem olhar o que está por revelar.

Como as Aguas Livres que ainda mostram um terminal recuperado e primorosamente iluminado. Quando me deparei perante a sua presença ainda corria livremente o liquído transparente. Razões de salubridade impuseram o seu encerramento o que é compreensível por estarmos em presença do Intendente.

Finalmente o nobre Fidalgo, fiel servidor, de Henriques lhe ofereceu a vida entrepondo o seu machado à vontade resoluta do mouro e pagando em vida trespassado pelas certeiras e mortíferas lanças que registaram o feito que
se fez lenda Olissiponense.

A cidade abre os seus cheiros, gentes e costumes neste local que também dá as mãos à Figueira, ao Rossio e aos povos que balizam aquilo que se ergue da destruição apocaliptica do terramoto que pariu um Leão Marquês Sebastião.

Por tudo isto tento digerir as razões desta Via que se esconde na sombra dos edifícios apagados, das vidas destruídas e envelhecidas e dos mercadores confusamente instalados por entre memórias de riqueza, cultura e requinte.

Outrora um veículo dourado percorria indolente toda a linha que eram duas, contornava o Areeiro e retornava ao ponto e partida insessante e eficiente.

Mas se algo apaga os testemunhos das cidades esse instrumento começa na memória dos seus habitantes. A minha despertou na Via Ápia do Almirante dos Reis inacabados, triplicados e bem sucedidos.