segunda-feira, maio 02, 2005

VIA ÁPIA

O tempo lança a via que se inica no céu e termina onde se enterra um machado da fundação. Os 3 estádios personificados em Martim Moniz, Fernão Magalhães e Sá Carneiro marcam a cronologia inacabada como a sua obra.

Estendendo-se entre a rotunda do “relógio”, tristemente encimada por um viaduto e a praça do Martim Moniz corre um eixo de propriedades únicas. Uma rodovia que percorre Lisboa entre duas fronteiras; a que se define pela segunda circular e aquela que era outrora uma bolsa de abrigo seguro para as embarcações que aì fundearam pela primeira vez.

Uma linha onde circulam, pássaros, pessoas e veículos de muitos tamanhos e formas. Sob a terra o metropolitano perfura o solo abrindo um convite em cada estação. Algumas areonaves usam uma parte do caminho mas ainda assim não tão assumidamente.

Ao longo do trajecto os edifícios ganham dimensão, altura e escala até terem um momento de pausa intensificada na Alameda Afonso Henriques. O fundador-conquistador observa no vazio da sua plenitude e parece animar os caminhantes em peregrinação embora a sua presença não se manifeste além do forte eco vindo da água que tomba e parece soletrar uma memória impar quando calha ser fonte. Recordo-me da agitação que sentia ainda criança absorvido pela magnânima beleza da energia liberta por essa força da natureza. Ficava igualmente triste por a ver deserta do elemento aquoso o que infelizmente sucedia e sucede ainda agora com necrófuga abundância. Uma fonte tão magestade não deveria encerrar o seu curso ouso pensar.

A jornada principia onde agora emerge um emarenhado de betão e asfalto assente numa rotunda onde existiam duas "gigantes" máquinas do tempo. Escrevo gigantes porque sempre que as observei pareciam-me descomunais do autocarro verde escuro que me desclocava entre os Olivais e o Areeiro. Era um momento fascinante poder ver aqueles círculos riscados de enormes ponteiros brancos com a vegetação cuidada por fundo. Não era algo que passasse despercebido aos olhos de um infantil.

Contornado o círculo de tempo seguimos pelo corredor de moradias que sendo muito variadas se integram harmoniosamente umas nas outras formando um mosaico colorido com que se sente prazer ao olhar.

Quando as via tentava desvendar os segredos por detrás de cada uma e ao fim de algum tempo memorizei todas elas como se fossem rostos. De olhos fechados a minha mente apontava com precisão a sua passagem pela moldura da minha janela.

Chegado ao Areeiro apeava-me e penetrava nas profundezas misteriosas do Comboio Fantasma. Embora vejamos o “motorista” a pilotar quando a compacta composição inrrompe pelo cais sempre se parece com um ser inanimado que soa a fabricação fantasmagórica. E com um pouco de imaginação podemos comparar os túneis a galerias pejadas de mil perigos que assolam os passageiros aterrorizando-os no instante fugazmente certo que os paralize.

Irremediávelmente vinha à tona no Rossio e na volta de novo no Areeiro. Aì Sá Carneiro, ou mais correctamente a sua cabeça decepada, olha certamente estupefacta tudo o que se passa. « - Onde estaríamos se não me tivesse despenhado? » Parece pensar interrogado no enigma.

Com a minha adolescência vieram novas responsabilidades e uma passagem diária pela Fonte Luminosa motivada pela frequência da famosa António Arroio onde confesso me desiludi pela moleza da doutrina artistica que certamente envergonharia o bastião que lhe deu nome.

Nesses tempos já escolhemos os nossos trajes afincadamente como convém ao agrado do mistério curvilíneo que também se senta e aprende na mesma fauna de estudantes cheios de hormonas anciosas por descobrir as diferenças entre géneros. E assim fazia algumas opções nas montras da Almirante Reis, fértil em alternativas sempre na "moda" e conveniente à magra bolsa de um projecto de gente.

Seguindo a pé vi um comandante de descobridores. Repousava deligentemente sob um canhão enquanto vislumbrava o horizonte parecendo adivinhar num sopro a direcção certa onde as correntes e os ventos seriam generosos ao seu desígneo. Tinha sempre um tom solene mas pragmático e as suas ordem seriam precisas, claras e empreendidas com sentido de missão.

Mais adiante uma casa de pasto onde os apreciadores de cevada liquida acompanhada de bife molhado podem descansar e confortar o apetite. Chamam-lhe Porto mas fica na Gália. Nunca entendi tal coisa mas prefiro os cachorros especiais com uma loura a condizer e o rolo de carne a preparar o repasto nas horas tardias pouco antes de encerrar pelo que sou invariávelmente varrido.

Continuando chegam os Anjos que por timidez nunca se revelam mas concerteza alguém os deve ter visto porque o seu nome ouve-se inclusivé debaixo dos nossos pés. Nesse preciso local uma nave aguarda os fieis entre o arvoredo que ferverosamente lhe monta a guarda. São muitas as interessantes arquitecturas que felizmente ainda perduram apesar do seu debilitado mas reabilitável estado.

Subitamente uma Viúva de Lamego anuncia no azulejo luzídio a sua marca de prestígio.

Importantes sinais decorativos assinalam a importância desta fase final do percurso e um "cabeça no ar" é mais premiado ao contrário de todos aqueles que simplesmente atravessam sem olhar o que está por revelar.

Como as Aguas Livres que ainda mostram um terminal recuperado e primorosamente iluminado. Quando me deparei perante a sua presença ainda corria livremente o liquído transparente. Razões de salubridade impuseram o seu encerramento o que é compreensível por estarmos em presença do Intendente.

Finalmente o nobre Fidalgo, fiel servidor, de Henriques lhe ofereceu a vida entrepondo o seu machado à vontade resoluta do mouro e pagando em vida trespassado pelas certeiras e mortíferas lanças que registaram o feito que
se fez lenda Olissiponense.

A cidade abre os seus cheiros, gentes e costumes neste local que também dá as mãos à Figueira, ao Rossio e aos povos que balizam aquilo que se ergue da destruição apocaliptica do terramoto que pariu um Leão Marquês Sebastião.

Por tudo isto tento digerir as razões desta Via que se esconde na sombra dos edifícios apagados, das vidas destruídas e envelhecidas e dos mercadores confusamente instalados por entre memórias de riqueza, cultura e requinte.

Outrora um veículo dourado percorria indolente toda a linha que eram duas, contornava o Areeiro e retornava ao ponto e partida insessante e eficiente.

Mas se algo apaga os testemunhos das cidades esse instrumento começa na memória dos seus habitantes. A minha despertou na Via Ápia do Almirante dos Reis inacabados, triplicados e bem sucedidos.

4 Comments:

Anonymous Ana Paula Dias said...

Já li e reli o "Via Ápia" várias vezes de modo a poder "saborear" em plenitude o conteúdo e a forma como está escrito ... estou impressionada. Para mim além de tudo mais o seu texto funciona como um "banho de cultura" sobre a cidade de Lisboa.
...a zona da "Alameda" também me é familiar...aqui tenho passado os melhores anos da minha vida...desde 1982 o meu ano de "caloira " do IST até agora ... creio até que Deus ponha fim ao meu "estágio" terreno. Também eu, em duas décadas, só consegui ver água na fonte da Alameda não mais que meia duzia de vezes...lembro-me da altura da EXPO 98 e no ano passado pela altura do campeonato Europeu de futebol. Agora "empoleirada" no 10.º andar de uma destas aberrantes torres de vidro do Campus IST consigo disfrutar do interminavel estaleiro das obras do metro e como é evidente em ano de seca extrema não se desperdiça água em fontes (...não acredito que seja esta a razão para ela continuar sem água...)
...continue a brindar-nos com a sua escrita "soberba"!
Beijinho
Ana

1:41 da manhã  
Anonymous Rui Correia said...

Camarada Mário

Estás a ficar como o vinho do porto, melhor com a idade (desculpa o lugar
comum do adágio mas às vezes são adequados e mais que suficientes).
Acho que este post é provavelmente o melhor que escreveste e, permite-me
a sugestão, uma semente para o que seria um livro bastante interessante:
uma revisitação poética de Lisboa e da sua arquitectura, história, toponomia,
mitos e tradições, talvez acompanhado de um ensaio fotográfico. Como
arquitecto dotado da capacidade da escrita penso que serias a pessoa
adequada para fazê-lo. É um trabalho de longo curso, mas que pode ser
recompensador. Pensa nisso. Podes até encetar contactos com uma
editora para te apoiar no trabalho.

Um abraço
Rui Correia

P.S. Desculpa a do camarada mas estou a ficar apanhado com esta
história de viver no Alentejo. Não tarda nada ando por aí de foice
e martelo na mão a zurzir contra os capitalistas.

2:12 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Caro Mário

Tem um gosto de nostalgia e também um toque de esperança no futuro e eu gosto.

Deixa-me falar de mim, e da forma como me lembrei de como era a nossa “Via Ápia” sempre presente no meu imaginário como um porto seguro.

A fonte era gigante e sinónimo de brincadeiras de Domingo à tarde pela mão dos progenitores. Nessa altura não me lembro de ela não ter água, íamos lá por ela e pela relva que acolhia as nossas brincadeiras.

Mais tarde todo e espaço majestoso, fonte de água e luz por um lado (fonte luminosa) e de sabedoria por outro (I.S.T.) acolheu as multidões da “Revolução dos Cravos” que aí se juntavam e festejavam, também um dia… lamentando a morte daquele que, decapitado, veio ocupar lugar e mudar o nome à Praça.

O “Arreiro” era o palácio dos arranha-céus e rasgava uma avenida que nos levava à contemplação de “viagens imaginárias” (é que os meus pais gostavam de me levar a ver os aviões).

O Relógio, sempre certo, não sei por que imaginável mão que o cuidava assim como do verde que o envolvia. A rotunda onde não havia semáforos no meu primeiro dia de condução nesta nossa Olissipo que me viu andar às voltas (ela e o relógio).

O “Martim Moniz” com o seu “Centro Comercial” ao ar livre para uns comerciantes de ouro e sapatos que foram desalojados não me lembro donde e que o voltaram a ser mais tarde para dar lugar a uns “arremates de mau gosto”.

A “Praça do Chile” onde nas costas de Magalhães e sob as vistas de todos quantos quiseram ver e viram dois loucos faziam amor em hora de “ponta”. Sim eram dois loucos que por ali andavam e que encontraram perdição para os seus desejos na hora em que todos voltavam dos “trabalhos”. Histórias.

No final da linha do eléctrico (feliz casinha amarela com bancos de palha, onde eu pelos 3 anos de idade discursava ao colo da minha mãe para quem ia nos bancos de traz) o Hotel Mundial e a sua loja de animais onde comprei o cágado que divertiu a petizada lá no quintal.

Todo o espaço e todo o tempo numa via que tudo dá e onde tudo se vende e se compra e que melhor podemos definir como “sonhos”.

RV

12:39 da tarde  
Blogger Mónica Carvalho said...

Vim aqui parar...
e fiquei fascinada com este texto!
Pelo seu todo e por me fazer recordar tantos caminhos por mim percorridos nestes espaços.
Adoro Lisboa e a Arquitectura que a envolve e adoro sentar-me a observar o que me rodeia, as pessoas, os prédios, o ruído,etc...
Com este texto, sem sair de casa...
imaginei tudo isso e trouxe-me tanta coisa boa, tantas memórias!
Vou continuar a leitura afincadamente e comentando...
Beijinhos
Mónica

12:06 da tarde  

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