quinta-feira, junho 16, 2005

PRIMA FACIE

Curiosos tempos em que perseguimos algo que não entendemos mas que ainda assim nos lança em frente. O nosso genoma conspira contra nós mesmos entregando-se experimentalmente a mutações mais frequentes como uma máquina quântica que fundamenta no acaso a sua forma de evolução natural, progressista e imparável.

A doença no humano constitui à décadas um dos maiores desafios daqueles que juraram fidelidade aos fundamentos de Hipocrates considerado pelos pares pai supremo da tentativa e descoberta de curas. Médico primeiro legou em 355 AC um juramento que leva o seu nome. Homem profundamente humanista dedicou alma, corpo e tempo àquilo em que acreditava fazendo eco desse estandarte que percorreu dois mil trezentos e cinquenta anos de mudanças imensas, insondáveis e surpreendentes em todo o vasto campo do conhecimento humano, inclusive a medicina. O que pode motivar um Homem isolado a mudar o mundo à sua imagem moral, como um profeta iluminado, verdadeiro e munido de uma inteligência brilhante?

Actualmente, se existem enigmas por resolver esse será em absoluto um deles. Encontrar genuínos Hipocrates representa um desafio só igual à sua dimensão porquanto seguimos ociosos uma certa entrega fútil, desobjectivada e redundante.

Quando outro visionário, que conhecemos apenas pela palavra oral, mais tarde transcrita para diferentes manuscritos sucessivamente reagrupados num único livro que identificamos por Biblia, teve a ousadia de expressar as suas ideias progressistas, uma ouve que se diferenciou pela coragem que conferia ao seu emissor mas também a todos aqueles que a abraçaram como uma bandeira do regimento.

Dar a outra face significa ser igual. Ser reconhecedor do outro, das suas multifacetas por vezes paradoxais, dos seus medos por vezes insustentados, das suas motivações por vezes incongruentes. Fazer uma oferenda tão abrangente revela-se uma forma de leitura clara, directa e objectivada. Uma leitura Prima Facie, à primeira vista, olhos nos olhos, mente na mente, entre iguais.

Dando-nos ao oponente provocamos a sua assinatura que no fundo o torna único e desse modo distintivo de tudo o que o rodeia. Logo identificável. Assim, munidos dessa informação enriquecedora podemos dedidir como contra atacar visando os seus pontos fracos, obrigando-o a reconhecer a sua inferioridade e, matendo uma posição elevada, demonstrar-lhe melhores formas de empregar os seus recursos.

Ao invés de sermos alvos apáticos e isolados estamos a descobrir a essência que se encerra naquilo que nos desafia, intimida e pode danificar.

Doutro modo nunca saberemos como agir nas circunstâncias mais hostis e, percorrendo extensas avenidas de sucessivo insucesso, demoraremos uma vida a entender as origens dos obstáculos que ofuscam os caminhos por onde seguimos.

Fazendo de um ataque directo uma reacção invencível superamos as nossas próprias limitações e acabaremos por experimentar o odor da invencibilidade.

Se, de contrário, optarmos por escolher diferentes faces, procurando confundir o oponente, iremos descobrir em nós mesmos o maior atacante. Lentamente essas máscaras tomarão a nossa unidade e a seu tempo irão combater-se pela supremacia de uma identidade única deixando para trás um corpo inanimado, vazio e estéril.

Assim quando procuramos entender o que nos envolve, se cruza connosco por onde passamos ou simplesmente nos visita estaremos a evoluir sustentadamente sem esforço.

O esforço decorre da coragem de se ser humilde e numa dimensão adequada encontrar sem nunca ter procurado.