sábado, setembro 03, 2005

ESTADO P

As imagens difundidas pelos canais de televisão nacionais a propósito dos incêndios florestais para além da consternação habitual trazem-me ao pensamento as piores reservas sobre o futuro, não só da floresta, objecto de permanente desatenção, mas também do país.
Observar as corporações de bombeiros destacadas, em suposta coordenação, para defender as parcas manchas florestais a serem desviadas para salvar construções desordenadamente espalhadas pelo território, sem qualquer gestão, planeamento ou fiscalização, é como ver um dominio feudal ser invadido por um exército inimigo e colocar as nossas tropas a proteger os bens dos aldeões na periferia do bastião fortificado e, semear ainda, pequenos grupos de peões apoiados por um cavaleiro, pelos campos agrícolas dispersos em redor. Não será necessário ser um experimentado militar para adivinhar o desastre de uma estratégia tão desajustada, ineficaz e fútil.

Se as Câmaras Municipais, que são responsáveis pela gestão dos concelhos que formam o nosso território, ignoram, contornam ou reeinterpretam os Planos Directores em vigor, sem que a sua negligência criminosa tenha rosto, o que podemos esperar quando a natureza decide mostrar-nos a sua brutal supremacia?

Em Portugal, qualquer cidadão pode ser construtor, arquitecto e mesmo engenheiro para povoar os terrenos com moradias, pequenas e médias construções que teimam em nascer perigosamente perto das árvores, desafiam as Portarias que regulam a actividade e contestam a sensibilidade estética e o treino experimentado daqueles que possuem a formação própria, e o talento necessário para equilibrar o mundo natural com o artificial produzido pela iniciativa humana.

Assim há que aceitar as consequências sociais, económicas e políticas que reflectem a ignorância gananciosa de todos aqueles que sistemáticamente saqueiam impunemente o bem comum.

Observar Portugal do ar é ler em primeira mão o desgoverno de sucessivos governos apenas atentos a sondagens de opinião, liderados por falsos bem-intencionados candidatos a messias e empenhados em acordos pré-eleitorais com poderes obscurecidos e sempre materiais.

No entanto se noutras empresas se pode responsabilizar um indivíduo pela sua incapacidade, aproveitamento e desrespeito pela palavra dada neste particular caso essa mesma responsabilidade habita em nós. Ignorar com insistência o que se passa no nosso quintal representa uma cobardia abafada mas nem por isso ausente.

Se queremos mudar algo teremos de, com a maior urgência, abandonar os tradicionais modos fatalistas, comentários desdenhosos e as chagas imaginárias de pobres desgraçados na cauda da Europa. Na realidade essa cauda é maravilhosamente uma vantagem competitiva.

Vivemos séculos de uma relativa paz que nos permitiu manter um vasto património histórico, natural e etnográfico de uma riqueza inesgotável, possuímos um clima soberbo e sem grandes sobressaltos, é hábito compulsivo sermos anfitriões inspirados, agradáveis e disponíveis para divulgar os tesouros caseiros das diferentes regiões que constituem o mapa nacional e os nossos pensadores são célebres fora das nossas fronteiras pelos avanços que produzem e que não são valorizados no solo onde pela primeira vez fitaram a luz do dia.

Assim sendo, o que pode correr mal se nos concentrarmos em sermos apenas optimistas, interessados, valorizarmos o que é nosso e assumirmos um compromisso que promova valores de qualidade? Arrisco afirmar que muito pouco.

Cultivar nesse sentido irá desenvolver as condições essênciais para as colheitas que aguardamos poderem vir a ser concedidas por segredos envoltos no nevoeiro e heranças de bravura ancestral gravada na pedra dos monumentos e nos testemunhos dos que registaram a história da nação.

O que esses longínquos tempos nos dizem é tão somente que um pequeno país pode, uma vez reunidas as vontades com firmeza, permitir-se a enormes empreendimentos se assim o determinar. Não por decreto, imposição marcial ou iluminação de grupos dirigentes ou religiosos, mas sim por mérito, esforço continuo e sentido de cidadania.

Como já todos descobrimos a globalização é uma madrasta severa para aqueles que se entregam nos devaneios da sorte que quase nunca premeia os pequenos números.

A excepção reside apenas no caso desses “pequenos” serem únicos, inteligentes e focados na excelência.

5 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Parabéns!, continuas a escrever primorosamente.

Abre as asas e VOA...

Pal

11:04 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

.....que pena tu tens, confessa.
Pena que não te deu alguns euros?
ou não falavas tão eloquentemente....

9:12 da tarde  
Blogger crisdean9054 said...

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5:19 da tarde  
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1:11 da manhã  
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1:55 da tarde  

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