terça-feira, junho 27, 2006

ESTADO F

O som agudo do instrumento cromado ecoou pela imensa basílica forrada de relva, betão e aço tencionado que rangia como um navio acossado pelas massas oceânicas. Os devotos crentes entoavam cânticos de incentivo aos deuses que voavam sobre o verde vegetal combatendo destemidos pela posse do redondo esférico.

Debatiam-se pelo destino a dar ao pequeno objecto arremessando-o de um extremo ao outro do gigante plano onde toda a acção se concentrava, procurando alinhá-lo entre os dois prumos encimados pela grossa viga branca de onde pendia uma ampla e comprida rede. Por vezes a partida provocava a ira colérica de quem assistia atento, como que petrificado na dinâmica dos acontecimentos desenhados.

Arautos escoltavam os senhores da guerra levando e trazendo notícias que faziam pender o equilíbrio das forças demoníacas que ali se enfrentavam. Por entre as matilhas de gente surgiam trovões de uivos e vozes alinhadas, ritmadas na cadência da competição. Os corpos desenhados pelo esforço esculpiam a atmosfera zumbindo à passagem do tempo medido pela correcta clepsidra. Segundo a segundo os instantes de emoção rasgavam o vazio criando imagens de empenho, determinação, sacrifício e sólida vontade, fundada na disputa.

Os guerreiros de ambas as Casas seguiam linhas de intervenção e dominio distintas, procurando a vitória e o trovejar da multidão envolta num feitiço de cor, luz, destreza e velocidade. Trajados e equipados de guerreiros e temidos por muitas nações da Terra os Infantes vencem a mortalidade pelos dignos feitos cumpridos, e alheios ao destino marcado troçam dele desafiando as estrelas por serem seus pares.
Durante 90 estádios usam a sua perícia para derrotar os arrojados e audazes oponentes prostrados pela imparável energia demolidora que os envolve controla e rodeia acabando por lhes triunfar. E nesse instante um pequeno reino de terra e mar se torna imenso de tão potente, invencível e direito.

A glória enche os céus vibrando nesses espartanos peitos inchados de devoção e engenho. Então um sinal encerra o campo onde carne, suor e garra vincaram o combate. Por entre os despojos do dia os triunfantes soldados retornam ao berço que se esconde no interior do espesso manto de jade agora vazio de movimento.
Numa cripta de pedra descansam enfim da demanda. O mito gravou para todo o sempre, eterno de tão impar efeito o que apenas alguns e singelos eleitos almejam cumprir.